MOSTRA DE CINEMA DE SÃO PAULO

Começou mais uma Mostra de Cinema de São Paulo. A maratona é longa, as opções são muitas, e eu já tenho pelo menos duas reclamações: antes os preços eram especiais e baratos e, salvo engano, não cobravam taxa pra comprar pela net. Como a única opção para quem não quer se arriscar a dar com a cara nas portas de um cinema lotado é comprar pela net, acho que a cobrança de taxa é uma forma de “elitizar” a Mostra, possibilitando que só aqueles dispostos a perder tempo e dinheiro na net ou gastar dinheiro em credenciais possam assistir aos filmes de maneira mais sistemática.

Reclamações à parte, na Mostra eu prefiro fugir dos chamados medalhões, aqueles filmes que todo mundo quer ver. Afinal, pra que disputar espaço em sala de cinema pra ver o novo Almodovar se o filme dele estréia logo no circuito. Nos próximos dias, tentarei assistir a coisas muito variadas, e vou colocando aqui na medida do possível. Esse período é, na minha opinião, perfeito para arriscar ou investir em coisas menos chamativas. Na segunda-feira, eu assumi um risco e fiz um investimento no escuro. Vamos a eles:

-DANIEL & ANA, DE MICHEL FRANCO

Na página da Mostra, é possível ler pequenos resumos sobre os filmes e uma biografia resumida dos diretores, inclusive citando participações em festivais. Quando eu li que esse filme havia sido selecionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, resolvi assumir o risco.

Daniel e Ana são irmãos. Ele está na escola e é um adolescente sociável e que começa a descobrir a vida sexual; ela é uma universitária às voltas com os preparativos de seu casamento. O início do filme é apenas uma passagem sobre o dia-a-dia confortável desses irmãos criados no seio de uma família de posses. Um dia, eles são sequestrados e obrigados a fazer sexo um com o outro, enquanto são filmados no ato. Sórdido, bem sórdido. E uma premissa muito interessante para se construir algo em cima. O diretor parece querer levantar o filme em cima de um tripé, mas, uma a uma, as bases de sustentação mostram-se frágeis.

Sexo entre irmãos é um grande tabu, mas parece que parte da força do ato viria do fato de eles serem muito amigos, quase cúmplices, antes desse ato. O filme realmente faz uma espécie de escursão pelo convívio dos irmãos, mas não consegue a profundidade necessária ao desenvolvimento posterior da história. Parece que houve uma pressa do diretor em chegar logo ao momento divisor de águas, e, então, essa base de sustentação fica frouxa e soam forçadas as referências posteriores sobre a tal cumplicidade entre irmãos.

Depois do fato trágico, o filme consegue segurar bem mostrando como cada um lida com o ocorrido, ainda mais porque eles decidem guardar doloroso segredo sobre isso. Inicialmente, ele sai para a rua, enquanto ela se tranca em casa e cancela o casamento. Depois, ela vai retomando pouco a pouco o comando de sua vida com a ajuda de terapia, enquanto ele vai se afundando mais e mais no silêncio e no isolamento, até que explode em fúria, e lá se vai mais uma das bases do filme, entregue a certa facilidade de resolução e fabricação de conflitos.

Por fim -e é no fim, mesmo-, ficamos sabendo, pelas letrinhas finais, que o filme seria baseado em fatos reais, e segue um texto falando sobre sequestros e pornografia violenta, um assunto forte, claro, mas que não era de forma alguma o tema principal desse filme. Não sabemos o porquê de os obrigarem a tal ato. É tudo misteriosos. Um dos sequestradores diz saber quem eles são -ou seja, não é um ataque ao acaso-, e chega a haver uma insinuação dos motivos do ato. Mas parte da força do filme vem justamente de não sabermos de fato a justificativa. É como em “Cachè”, de Michael haneke, no qual as fitas são só um pretexto, um ponto de partida. No entanto, parece que prevaleceu a velha ânsia de dizer que a obra é real como uma forma de buscar o choque final. Pena -só conseguiu retirar o pouco de força que restava ao filme.

A VIDA PRIVADA DE PIPA LEE, DE REBECCA MILLER

Esse não foi um chute no escuro. Rebecca Miller é uma diretora com certa fama, que fez, entre outros, “A balada de Jack e Rose”. Aqui, ela trás a história de Pipa Lee -a excelente Robin Wright Penn-, que se muda com seu octagenário marido para um bairro de idosos. Ele é dono de uma grande casa editorial, mas, depois de três infartos, decide aposentar-se. Ela vai junto, derramando-se de cuidados com ele.

O filme começa com um discurso no qual um escritor diz que Pipa Lee é um mistério. Ela decide rebater essa faceta misteriosa, e, assim, começa a contar toda a sua vida, desde o nascimento -quando era muito peluda- até o presente, em constantes flashbacks engenhosamente montados e com pitadas de humor negro.

Em inglês, o filme se chama “The private lives of Pipa Lee”. O plural de “vidas” é fundamental, pois vemos que Pipa é, na verdade, uma mulher multi-facetada, e que seu passado em nada condiz com seu presente tão cheio de austeridade e resignação.

Deve-se destacar o elenco que trás nomes do peso como Alan Arkin, Juliette Moore, Monica Belucci -inpagável, por sinal- e Maria Bello -que dá um show como a mãe viciada de Pipa e até Winona Ryder, renascida das cinzas. O ponto baixo fica -oh, que surpresa!- por conta de Keanu Reaves e sua variação expressiva digna de um cigano Igor.

Ao fim, temos um belo filme que vale o ingresso e que consegue mostrar com delicadeza e engenhosidade o caminho que Pipa Lee percorre durante toda sua vida até se encontrar novamente consigo mesma. Arrisque-se.

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