WATCHMEN

By fredericokling

Muito se discute sobre qual lugar os quadrinhos deveriam ocupar na cultura mundial. Uns dizem que devem ficar no status de arte pop, julgamento que relega-os a uma posição cultural inferior. Outros afirmam que quadrinhos são sim uma expressão artística legítima e de qualidade, ainda que sempre haja as exceções, assim como em qualquer outra forma de arte. “Watchmen”, sem dúvida, ajuda a posicionar os quadrinhos em uma posição cultural elevada.

A história surgiu da união da inquieta mente do roteirista Alan Moore com o traço certeiro de Dave Gibbons, aproveitando-se de um punhado de heróis que a editora DC adquiriu ao comprar os direitos de uma editora menor do mercado. O primeiro criou o argumento, que parte da premissa de que os heróis são apenas pessoas normais, com problemas normais e que afetam decisivamente o mundo a sua volta, ainda que haja espaço para algumas passagens para lá de extraordinárias, mas plenamente justificáveis. Gibbons, por sua vez, se não insere nenhuma grande novidade com seu traço clássico, é capaz de sutilezas de enquadramento e de detalhes dignas dos melhores diretores de cinema.

A história começa com a morte do Comediante, um dos poucos vigilantes autorizados pelo governo a atuar -uma lei proibiu a atividade dos mascarados. O crime chama a atenção de Rorschach, uma figura paranóica que atua na clandestinidade e contra a lei. Ele entra em contato com seus antigos companheiros de máscaras, pois crê que o assassinato não tenha sido apenas um crime comum, teoria que vai ganhando força na medida em que outros ex-vigilantes são atacados.

Sob essa premissa, Moore fez um imaginativo exercício contrafactual, criando um mundo no qual os Estados Unidos servem-se dos poderes incríveis do Dr. Manhattan -um homem comum atingido pelo manjado truque do acidente atômico- para desequilibrar a balança da Guerra Fria. Assim, os soviéticos ficam em constante estado de prostração política, permitindo, inclusive, que os norte-americanos ganhassem a Guerra do Vietnam e reelegessem muitas vezes mais Richard Nixon.

Nesse pano de fundo fantástico, Moore vai contando as histórias dos homens e mulheres que foram vigilantes, pessoas que são cheias de angústias, temores, remorsos e paixões. É uma história na qual o grosso da ação não acontece externamente, mas sim dentro de cada uma daquelas personagens. E para narrar essas histórias, o roteirista, contando com a habilidade imagética de seu desenhista, cria uma porção de passagens paralelas, aparentemente sem sentido, mas que vão justificar por fim as ações dos envolvidos.

Moore não se furtou nem mesmo a mostrar que, mesmo sendo um exercício contrafactual, a maior parte da ação passa-se em uma Nova Iorque decadente, apesar da posição hegemônica norte-americana- e Nova Iorque era exatamente um antro do esgoto dos Estados Unidos no período pré-Rudolph Giulliani.

O que se tem, por fim, é um belo exercício narrativo que marcou a arte dos quadrinhos, aliando um roteiro extremamente bem amarrado a uma execução visual de primeira para fazer uma reflexão aguda sobre a década em que foi escrita -1980-, mas sem se furtar a apresentar personagens maravilhosamente construídas. Não sei quanto aos outros, mas, para mim, isso já basta para colocar essa obra em um patamar superior na produção cultural.

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