Posts de Junho, 2009

O passado

Junho 23, 2009

Pode-se dizer que “O passado”, do argentino Alan Pauls, é a anatomia de um amor morto, mas não enterrado. Com uma escrita profundamente incisiva, quase barroca, Pauls narra o fim do relacionamento de doze anos entre Rímini e Sofía e o que se segue a essa pequena catástrofe pessoal.

Quando o casal perfeito se dissolve, a surpresa é geral. Sejam os amigos, os parentes ou mesmo a mentora intelectual de Sofía. Ninguém podia acreditar que aquele relacionamento pudesse um dia acabar. Mais ainda, ninguém poderia suspeitar que aquele fim era uma escolha racional, tomada por uma mulher extremamente forte e por um homem incrivelmente fraco. Se Rímini acha que o fim é uma forma de liberdade, ele só sai da relação para viver um longo e delirante período sob a sombra dessa morta, que parece sempre voltar para atormentá-lo.

Pauls manipula com excelência as idas e vindas do tempo, escreve com uma riqueza de detalhes impressionante os descaminhos percorridos por Rímini -o foco é no homem apesar da presença quase massacrante das mulheres- e nos faz sentir um misto de pena e ódio desse personagem tão fraco e tão dependente do outro.

Logo após o término, Rímini entrega-se a uma torrente delirante de trabalho, uso de cocaína e masturbação. Parece ter atingido a tão sonhada liberdade quando começa a se relacionar com Vera, uma jovem extremamente impulsiva, capaz de falar as maiores barbaridades por ciúmes e eternamente dilacerada pela presença ausente de Sofía. Eternamente porque ela terá um fim trágico antes que Sofia desapareça.

Depois há Carmem, a companheira de profissão, aquela que o acompanha na dramática perda da capacidade de traduzir, ofício que exercia tão bem. Carmem lhe dá um filho, mas nem assim Rímini consegue se livrar de Sofía, cuja presença, mais uma vez, levará ao fim da relação.

Pauls narra assim um espiral que vai do término do relacionamento com Sofía até uma espécie de entrega final de Rímini frente àquela presença sufocante. No meio do caminho, a vida de uma pequena constelação de mulheres maravilhosamente descritas vai sendo mudada por esse casal que não existe mais, tudo pontuado pelas tumultuosas e surpreendentes aparições de Sofía, como um fantasma a atormentar Rímini. A escrita de Pauls é verdadeiramente impressionante e, ainda que nos assustemos com as 478 páginas da edição da Cosac & Naify, é com grande prazer e intensidade que se mergulha nelas.

Há, inclusive, uma espécie de novela dentro do romance, um capítulo que narra a trajetória de uma obra do artista Jeremy Riltse, praticante de uma arte plástica baseada na automultilação e que tem importância crucial na memória afetiva de Rímini e Sofía. Na verdade, tal capítulo poderia ser perfeitamente suprimido, mas serve como uma espécie de exercício virtuosístico. Incrível.

O único ponto que me incomodou -e incomoda- é que, apesar do estilo barrocamente detalhado, no qual os menores lances adquirem crucial importância, um fato tão importante tenha sido deixado para ser revelado apenas na porção final do livro. É impossível não ser tomado de estranheza ao ver o autor sacar tão inusitadamente uma parcela do passado de Rímini para dar continuidade à história e levá-lo ao quarto relacionamento sexual -não amoroso- do livro, com a insatisfeita e casada Nancy. Leiam e confiram.

De qualquer forma, apesar do inusitado dessa situação, a obra é uma composição impressionante de um escritor que demonstra pleno domínio de seu estilo e total controle sobre os descaminhos que traçou para Rímini, levando o personagem a um verdadeiro “tour de force” que não exatamente o leva ao autoconhecimento que tais processos costumam alcançar.

OS FALSÁRIOS

Junho 10, 2009

 

Há tantos filmes de holocausto que se pode dizer que tal tema tornou-se quase um gênero em si. Talvez porque esse evento tão traumático seja tanto um testemunho sobre a maldade humana quanto um repositório de pequenas histórias maravilhosas em meio ao mais profundo horror. “Os falsários”, de Stefan Ruzowitzky está no segundo tipo, narrando a passagem de Salomon Sorowitsch pelo campo de concentração.

Salomon não é um prisioneiro qualquer. Ainda que judeu, ele foi preso antes de posta em funcionamento a máquina da morte nazista. Salomon era um famoso falsificador de dinheiro -o maior, diziam alguns- e vivia uma vida de excessos antes de ser preso na Berlim pré-guerra. Com o tempo, acaba tendo o destino de todo judeu que estivesse em mãos de nazistas, o campo de concentração. É da vida miserável de um campo que Salomon vai ser retirado para executar uma serviço inusitado -falsificar moedas dos países aliados. Para isso, ele é alojado em uma ala, digamos, mais benevolente do campo, onde os outros judeus participantes do processo de falsificação gozam de privilégios tais quais banhos, comida e música.

O chefe do campo, o homem que pescou Salomon do horror e o colocou no “paraíso”, é o mesmo que o prendeu anos antes. Por isso, ele sabe sobre o talento de Salomon, e logo o cerca de regalias maiores do que as dos outros. A partir daí, o filme desenvolve-se basicamente em duas linhas -as relações entres os judeus “privilegiados” e os sentimentos desses em relação aos judeus que estão fora da área isolada onde trabalham, e que estão sujeitos aos piores horrores que o nazismo poderia proporcionar -e que só aparecem, dramaticamente, uma vez.

Surgem os mais diversos personagens. Temos o idealista que considera uma traição trabalhar para os nazistas e que clama por uma revolta; há o comandante judeu da operação; o jovem artista por quem Salomon desenvolve afeição; o banqueiro que hesita trabalhar com Salomon por esse ser criminoso comum; o médico. Mas é Salomon o personagem mais instigante. A interpretação de Karl Markivics nos entrega um homem desconfiado, de poucas palavras, de olhar arguto e observador. Salomon parece estar sempre indiferente ao destino dos seus colegas, mas ainda assim é capaz de pílulas insuspeitas de companheirismo. Por um lado, é um individualista convicto, preocupando-se apenas em sobreviver; por outro, é capaz de pequenos heroísmos. Enfim, um homem contraditório, nada maniqueísta.

Na verdade, maniqueísmo é o grande ausente do filme, uma qualidade em se tratando do tema do holocausto, no qual é tão fácil apontar monstros e inocentes. Nem os judeus falsários são todos santos, nem o nazista que comanda a operação é todo monstro, ainda que haja um nazista que é a encarnação do diabo. O fato de a história se focar em judeus em condições especiais, sendo homens nutridos, levando uma vida quase normal, já mostra o tratamento diferenciado que a película dá ao tema.

O filme começa com Salomon hospedando-se no cassino de Monte Carlo. Depois desenvolve-se o longo flashback que conta a sua história. O fim é no mesmo cassino. Um fim belíssimo e surpreendente, diga-se de passagem. Assim, esse não é apenas mais um filme de holocausto, mas sim é uma grande e emocionante narrativa sobre homens apanhados pela máquina aniquiladora da história. Talvez isso justifique o Oscar de produção estrangeira que o filme levou em 2008, ainda que se possa desconfiar do gosto dos velhinhos de Hollywood, que adoram uma boa história de holocausto.