Posts de Março, 2009

Quem quer ser manipulado?

Março 24, 2009

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Danny Boyle um dia pareceu ser o futuro do cinema. Fez os ótimos “Cova Rasa” e “Trainspotting”, mas depois nunca mais acertou a mão, derrapando feio muitas vezes, acertando quase lá em outras. “Quem quer ser milionário?” pode ser o retorno de Boyle enquanto aposta de bilheteria, mas não é de longe o seu renascimento artístico, conforme dizem alguns.

A premissa é bem interessante. Baseado em um livro de Vikas Swarup, a película conta a história de um rapaz que participa de um popular jogo televisivo de perguntas e respostas. Surpreendentemente, ele vai ultrapassando cada uma das fases, respondendo a perguntas cada vez mais difíceis, burlando mesmo a rasteira do apresentador, até chegar à pergunta final. Só que o jovem é um pobretão, sem escolaridade. Logo, pipocam suspeitas de fraudes.

Na verdade, cada uma das respostas o jovem tinha por causa de fatos ocorridos em sua atribulada vida. Desde as favelas sujíssimas da então Bombaim, passando pelas maravilhas turísticas do Taj Mahal, desembocando finalmente no punjante crescimento da agora Mumbai, Jamal está sempre acompanhado do irmão mais velho -e um pouco mal caráter- Salim. Quando entra na vida deles a menina Latika, Jamal imediatamente se afeiçoa e, por fim, se apaixona por ela. Mas o destino não está a favor deles. E esse é o problema.

Sim, porque, de alguma forma, o destino torna-se o grande tema do filme. Apesar de sobreviver a tantas desventuras, o que conspira para reunir Jamal e Latika, ao mesmo tempo em que leva à redenção de Salim, é o tal do destino. Isso retira parte da força da obra.

A fim de justificar o tal destino, o que se vê é uma sucessão de coincidências que vão partindo do sinceramente dramático até desembocar no manipulavelmente acaso. O roteiro acaba tornando-se mecânico demais nessa sua ânsia de justificar as respostas de Jamal, nessa sua urgência em reunir o jovem a sua antiga paixão.

Celebrado como o encontro inicial entre Hollywwod e a extremamente produtiva Bollywood, o filme até consegue fugir do pastiche de clichês tipicamente indianos. O ponto alto, por sua vez, é o elenco, sobre o qual há unanimidade total. As crianças, todas das favelas de Mumbai -algo que nos remete de cara aos atores não profissionais tão em voga no cinema nacional-, são simplesmente cativantes, assim como o elenco do tempo presente, com destaque para a beleza estonteante de Freida Pinto, que interpreta a Latika jovem.

O filme é bom entretenimento. E nada mais. Não merece a chuva de Oscars que levou, principalmente em um ano com filmes tão mais honestos.

Um passado para Antonio

Março 18, 2009

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“Antonio” é o terceiro livro de Beatriz Bracher, uma das fundadoras da editora 34. Nele, o personagem Benjamim -às voltas com o nascimento de seu primeiro filho, Antonio- busca conhecer uma parte obscura do seu passado. Assim, a obra é uma reconstrução da memória por meio dos relatos de três personagens -a avó, Isabel; Haroldo, amigo de seu avô; Raul, amigo de seu pai-, que contam, de maneira alternada, as histórias de uma família assombrada por um grande segredo e por relações complicadas.

A história surge, portanto, em pedaços, impedindo-nos de saber a realidade inteira, apenas abrindo espaço para a realidade que cada relatante conta, de acordo com suas lembranças e julgamentos dos fatos, expostas de modo direto, como se fôssemos nós mesmos esse Benjamin a descobrir o passado. O recurso narrativo é o grande destaque do livro, mas, também, sua grande falha.

Rodrigo Lacerda escreve na orelha da obra que a escritora “consegue um ótimo resultado. Ela evita diferenças esquemáticas e traços de fala óbvios demais em cada um de seus personagens”. Pois bem, a diferença de tons e temas é que acaba por enfraquecer o esforço narrativo da obra. Seria possível trabalhar-se com diferentes narradores que utilizam diferentes vozes e diferentes temas para falar sobre um mesmo assunto, sobre pontos de vista diversos. Para usar o exemplo mais agudo de todos, William Faulkner abrilhantou esse recurso com seu “O som e a fúria”, mas nem seria preciso ir tão longe: Milton Hatoum foi igualmente feliz no uso desse recurso em “Relatos de um certo oriente”.

No livro de Beatriz, no entanto, todos os narradores falam igual. As diferenças vêm apenas dos julgamentos que cada um deles faz sobre o mesmo assunto. Mas aquela uniformização da voz acaba por tirar parte da lustrosidade trazida pela diferenciação narrativa. Assim, reconhece-se quem fala não por sua voz, mas por aquilo que fala. A experiência parece incompleta.

A obra, que ficou em terceiro lugar no Prêmio Jabuti e em segundo no Portugal Telecom, justifica o interesse levantado pela forma como aborda o tema da memória e das relações familiares, usando um relato fragmentado e direto, falando diretamente ao leitor, tornando-o parte de um experiência quase exasperante. O uso de um certo paralelismo entre a história do pai e do avó de Benjamin apenas acrescentam maior interesse ao escrito. Mas, ao final, parece que o projeto estético do livro ficou incompleto, não alcançando sucesso total. Talvez por isso não ter sido primeiro nos citados prêmios. Quem sabe…

A agonia de Kym.

Março 3, 2009

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Na década de 1990, Jonathan Demme fez um grande filme que dissecava as entranhas psicológicas dos Estados Unidos. Sim, porque “O silêncio dos inocentes” vai muito além do mero thriller de serial killers, abordando uma América machista, insegura e conservadora. Depois, Demme parece ter perdido a mão -e a relevância na sétima arte. Agora, com “O casamento de Rachel”, o cineasta parece mostrar que ainda tem cartas na manga. 

O filme centra-se na história de Kym, que sai de uma clínica de recuperação diretamente para o centro do turbilhão que é o casamento de sua irmã, Rachel. A casa de seu pai, onde acontecerá a cerimônia, está lotada, a música é constante, há sempre gente falando e indo para todos os lados, e Rachel parece não se encaixar muito bem nauqilo tudo. 

Isso acontece por que há um grande elefante branco no meio da sala da família, sobre o qual poucos querem falar, ou mesmo lembrar, mas que ainda assim está presente, sendo percebido aqui e ali, com notas de muita emoção e rancor -Kym foi a responsável pela morte do irmão mais novo, em uma cidente de carro, enquanto dirigia drogada. 

Há sempre olhares para Kym, que variam entre o acusador, o de pena e o condescendente. Ela, por outro lado, quer passar despercebida, mas, ao memso tempo, chama a atenção, sempre que pode, para o drama que vive. É uma situação muito paradoxal: uma pessoa que não quer ser lembrada por sua tragédia, mas que, a todo momento, lembra a todos sobre o que aconteceu, em uma tentativa desenfreada de buscar uma normalidade. 

O roteiro de Jenny Lumet é brilhante. Não há concessões nem espaço para sentimentalismos. Tudo é tratado com muita crueza, e a verdade parece ser a tônica das palavras ditas por todos os personagens. Isso, associado à direção irriquieta de Demme, criam um clima intenso, no qual tudo parece sempre estar a um centímetro de despencar. Assiste-se ao filme com um constante sentimento de risco, uma quase torcida para que não aconteça o pior. 

O roteiro, por sinal, esscapa da solução fácil de ambientar a história em uma família conservadora, ou, no mínimo, tipicamente americana. Ao invés disso, vemos pessoas muito liberais e educadas, das mais diversas cores e opções sexuais, mas todas sempre com um julgamento nos olhos ou nas palavras. 

Em um filme tão denso, os atores cumprem papel fundamental. Assim, a mais grata surpresa é Anne Hathaway, que, de rostinho bonito em Hollywwod, tornou-se atriz incrível sob a batuta de Demme. Ela encarna Kym com a medida certa de desprendimento e rancor, sem excessos nem faltas. Perfeita. 

As outras interpretações também estão na medida. Rosemarie DeWitt dá o tom certo para uma Rachel que tenta dissimular o rancor pela morte do irmão, ao mesmo tempo em que esbanja a felicidade de uma noiva. Bill Irwin sai-se muito bem como o pai condescendente, que a todo o tempo tenta agradar e fiscalizar Kym, sempre à espera do pior, mas que, aqui e ali, deixa-se dominar pela tristeza. Por fim, Debra Winger está gélida no papel da mãe, dando show nos poucos minutos em que aparece. 

Demme faz uma bela autópsia de uma família em processo acelerado de desagregação, que tenta a todo custo esquecer as tragédias do passado, juntar seus cacos e seguir em frente. Ele é muito feliz no resultado, pois, apesar de “O casamento de Rachel” ser eminentemente um filme de palavra, não é pelo que diz que se destaca, mas sim pelo que não diz.