
Danny Boyle um dia pareceu ser o futuro do cinema. Fez os ótimos “Cova Rasa” e “Trainspotting”, mas depois nunca mais acertou a mão, derrapando feio muitas vezes, acertando quase lá em outras. “Quem quer ser milionário?” pode ser o retorno de Boyle enquanto aposta de bilheteria, mas não é de longe o seu renascimento artístico, conforme dizem alguns.
A premissa é bem interessante. Baseado em um livro de Vikas Swarup, a película conta a história de um rapaz que participa de um popular jogo televisivo de perguntas e respostas. Surpreendentemente, ele vai ultrapassando cada uma das fases, respondendo a perguntas cada vez mais difíceis, burlando mesmo a rasteira do apresentador, até chegar à pergunta final. Só que o jovem é um pobretão, sem escolaridade. Logo, pipocam suspeitas de fraudes.
Na verdade, cada uma das respostas o jovem tinha por causa de fatos ocorridos em sua atribulada vida. Desde as favelas sujíssimas da então Bombaim, passando pelas maravilhas turísticas do Taj Mahal, desembocando finalmente no punjante crescimento da agora Mumbai, Jamal está sempre acompanhado do irmão mais velho -e um pouco mal caráter- Salim. Quando entra na vida deles a menina Latika, Jamal imediatamente se afeiçoa e, por fim, se apaixona por ela. Mas o destino não está a favor deles. E esse é o problema.
Sim, porque, de alguma forma, o destino torna-se o grande tema do filme. Apesar de sobreviver a tantas desventuras, o que conspira para reunir Jamal e Latika, ao mesmo tempo em que leva à redenção de Salim, é o tal do destino. Isso retira parte da força da obra.
A fim de justificar o tal destino, o que se vê é uma sucessão de coincidências que vão partindo do sinceramente dramático até desembocar no manipulavelmente acaso. O roteiro acaba tornando-se mecânico demais nessa sua ânsia de justificar as respostas de Jamal, nessa sua urgência em reunir o jovem a sua antiga paixão.
Celebrado como o encontro inicial entre Hollywwod e a extremamente produtiva Bollywood, o filme até consegue fugir do pastiche de clichês tipicamente indianos. O ponto alto, por sua vez, é o elenco, sobre o qual há unanimidade total. As crianças, todas das favelas de Mumbai -algo que nos remete de cara aos atores não profissionais tão em voga no cinema nacional-, são simplesmente cativantes, assim como o elenco do tempo presente, com destaque para a beleza estonteante de Freida Pinto, que interpreta a Latika jovem.
O filme é bom entretenimento. E nada mais. Não merece a chuva de Oscars que levou, principalmente em um ano com filmes tão mais honestos.

