Posts de Setembro, 2008

Gosto de maresia

Setembro 25, 2008

O irlandês Jonh Banville ganhou o prestigioso “Man Booker Prize” em 2005. Se não fosse por isso, dificilmente eu leria um livro dele, afinal, nunca tinha ouvido falar do sujeito, ainda mais nesse oceano interminável de escritores e obras, no qual poucos se salvam. Mas ele ganhou e eu o li.

Li “O mar”, a obra que botou Banville no meu radar. E o livro realmente é uma pequena obra prima, digna de ganhar o prestígio internacional que ganhou (veja só, chegou mesmo a escavar um lugar na nossa indecente lista de mais vendidos, usualmente freqüentada por porcarias…).

Viajando no tempo entre passado distante, passado próximo e presente, vemos Max Morden narrar fatos de sua vida. Do passado distante, o período em que conviveu com casal de gêmeos Grace -a enigmática Chloe e o literalmente calado Myles-; do passado recente, o narrador nos descreve os momentos finais de sua falecida mulher e a convivência problemática com a filha; do presente, temos Max de volta à casa momentaneamente habitada pelos Grace naquele longínqüo verão, agora transformada em pousada e dirigida por Mrs. Vavasour.

Destaca-se no livro a narrativa de Banville, capaz de dar gosto ao escrito. As passagens à beira-mar, na qual Max primeiramente contempla a matriarca da família Grace, o alvo inicial de seu afeto, e aquelas nas quais está com os irmãos, conseguem realmente trazer-nos aquele gosto de sal e o cheiro de pele ao sol. Até a luminosidade, sempre muita branca, quase como uma névoa, Banville consegue nos passar. Outro triunfo narrativo é a crueza das palavras de Max, que consegue nos dizer as coisas mais doces e as mais terríveis sem julgamentos, ou sem pontas de raiva. Ele apenas fala, com uma sinceridade aguda. Assim é, por exemplo, quando ele fala à filha sobre o médico que uma dia o tocou nú, ou quando, de maneira para nós quase insuportável, descreve a mesma filha como feia e fracassada. É muita crueza, mas sem tornar o narrador cruel.

Ao longo do livro, ele descreve os detalhes do verão passado, a trasferência de seu afeto da mãe para a filha, o convívio complicado com Chloe -jovem impetuosa e manipuladora- e com Myles -o irmão mudo e de atitudes agudas- e como tudo isso veio a influir em sua vida.

Em outro registro, Max narra a descoberta da doença da esposa, a única personagem da obra a quem dirige um verdadeiro e doloroso afeto, a forma como se conheceram e viveram. Nesse mesmo passado recente há o encontro com a filha, para mim a melhor passagem do livro. Sem entrar em maiores detalhes, é um primor da descrição de tudo que existe de não-dito entre duas pessoas, entre dois seres que falharam de alguma forma no meio do caminho, e não se tornaram aquilo que deveriam ser. Arrisco dizer que essa passagem valeu o prêmio ao livro.

Finalmente, no presente Max narra a volta ao lar alugado pelos Grace, onde ele vai para sublimar o passado -o recente e o longínqüo- sob o pretexto de escrever uma obra sobre o pintor Bonnard. Ali, ele convive com Mrs. Vavasour (mrs. é a abreviação para senhorita em inglês, o que denota a solteirice da mulher, detalhe importante ao qual só atentei no final) e com um misterioso coronel, que habita o quarto em frente.

A obra é uma viagem memorialística, em busca do detalhes que às vezes perdemos no meio do caminho, mas que são importantes na definição daquilo que somos. Como já dito, a narrativa é primorosa, muitas vezes prendendo o leitor, e capaz de fazê-lo lembrar suas próprias praias passadas. O único porém é que o livro se resolve de forma meio apressada no final. Há revelações que são feitas e que nos eletrizam para descobrí-las, mas o fato de estarem todas muito próximas das outras acaba por tirar-lhes o sabor do impacto, o que de forma alguma diminui o prazer da leitura. É apenas um detalhe que me chamou a atenção, e que pode ser coisa de leitor ranzinza…Ainda assim, fecha-se “O mar” com a impressão de se ter lido algo belo, algo grande, algo que perdurará para além da lista de “best sellers”.

A força do caos

Setembro 18, 2008

“Ensaio sobre a cegueira” era o filme com o qual Fernando Meirelles queria iniciar sua carreira cinematográfica. José Saramago, autor do livro, negou-lhe os direitos. Fez bem. Talvez o brasileiro estivesse verde demais para filmar uma obra tão complexa. Mas será que agora ele já estaria suficientemente maduro para a empreitada? “Mais ou menos” é uma boa resposta.

O grande mérito do filme é captar o clima de caos presente no livro. As imagens que vão aparecendo aos nossos olhos são cada vez mais impressionantes, tudo muito bem temperado pela magnífica fotografia do uruguai Cesar Charlone, habitual colaborador de Meirelles desde “Cidade de Deus”. As luzes estouradas, os jogos de câmera, tudo é feito para nos dar a sensação de como seria a tal cegueira leitosa, que um dia atinge um homem parado no semáforo, e depois se espalha por toda uma cidade -será que pelo mundo? isso não fica definido no filme.

Os personagens não tem nome, e uma boa sacada de Meirelles foi ter contado com pessoas das mais variadas matizes étnicas, desde a típica caucasiana norte-americana até o casal de orientais. É quase um apanhado da raça humana colocada em cena. E essa é a história do livro, extremamente ilumista, e que questiona o quanto de solidariedade e de humanidade ainda existe em nós. Essa pequena tragédia é contada pelo olhos da mulher do médico -os personagens do filme, assim como no livro, não tem nomes-, a única capaz de enxergar no centro em que os cegos vão sendo cofinados. Ali, afastados da visão de todos, todos começam a adotar posturas que nunca adotariam em situações normais. Alguns andam nus, outros defecam o chão, e outros transformam-se em verdadeiros fascistas. Por sinal, esses últimos rendem a cenas mais grotescas do filme, o auge da humanidade perdida.

Se a obra capta muito bem o já citados clima de caos que passa a reinar, tanto dentro do confinamento quanto fora dele, o roteiro fracassa ao estabelecer as ligações humanas entre os diversos personagens. Por conta disso, fica sempre a impressão de que há um fio meio solto, algo que falta, basicamente, um mal desenvolvimento daqueles presentes no filme. Nisso, nem as notáveis atuações de Gael Garcia Bernal, Juliane Moore, Mark Rufallo e Alice Braga conseguem se salvar. Simplesmente há quebras de desenvolvimeto dos personagens.

Outro ponto falho é a narração em off, feita pelo personagem de Danny Glover. A versão atual não é a mesma que estreou -com recepção fria- em Veneza. Umas das principais mudanças foi exatamente nessa narração, antes muito mais presente. O problema é que ela agora aparece em dois momentos, tornado-se deslocada e sem muito sentido no contexto. Pior ainda, aparece na cena final, declamando literalmente as palavras finais do livro. Basicamente, há uma explicação desnecessária do fecho, que seria perfeitamente exprimível por imagens, como, por sinal, ocorre. Então, para que essa narração em off?

Saramago viu e gostou. Se o autor da obra literária aprovou, deve ser porque, no mínimo, Meirelles captou a essência do livro. E isso ele realemnte conseguiu. Mas faltou a carne. E isso empobrece o resultado. Ainda assim, assistir a “Ensaio sobre a cegueira” é uma experiência visual pela qual é impossível passar incólume.