Posts de Maio, 2008

América profunda

Maio 21, 2008

 

Esqueça os Estados Unidos rico que se vê na tela. Na verdade, esqueça tambem os Estados Unidos pobre. O que se vê em ”Bubble”, de Steven Soderbegh, é a América como nunca antes vista. Tudo é modorrento, devagar quase parando. As pessoas são feias, pobres, inarticuladas e meio catatônicas. Ao contrário de outros fimes que tentam mostrar o que existe debaixo de tanta riqueza, esse não usa do menor artifício para tal. Na verdade, seu naturalismo cru é sua maior virtude -até a música simples ao máximo realça um ambiente pra lá de estéril.

O filme gira em torno do jovem Kyle e de Martha. Ambos são empregados em uma fábrica de bonecas, e ela dá carona ao jovem até o trabalho.  Lá, eles conversam sobre nada durante o intervalo e levam suas vidas modorrentas. A chegada da bela e irriquieta Rose desestabiliza a dupla. Kyle logo se sente atraído pela jovem; Martha se sujeita a prestar diversos favores a ela, ainda que tenha vários afazeres, como outros empregos e cuidar do pai debilitado. O mais curisoso é que Rose, a única personagem que tráz algum movimento à tela, com seu jeito rápido de falar e a sua, digamos, “espaçosidade”, é assassinada, de uma forma que lembra muito o Mersault de “O Estrangeiro”, de Camus. O final não é nada surpreendente, mas nem se propõe a sê-lo. Não espere reviravoltas como nos filmes normais sobre crimes. Esse é uma cópia quase fiel da vida real, e nela tudo é óbvio e os assassinos sempre são aqueles de quem primeiro suspeitamos.

Soderbegh é um caso curioso no cinema americano. Surgiu com um clássico do cinema independente -”sexo, mentira e videotape”, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes-, mas logo fez amizade com um estrelado círculo de atrizes e atores. Desde então, alterna blockbusters, como “Onze homens e um segredo”, com filmes mais, digamos, fora do normal, como esse aqui e “Solaris”. Mas “Bubble” atinge o auge da simplicidade cinematográfica, e essa aparente pobreza é sua maior virtude.

Não é uma grande filme, certamente não vai entrar para a história da sétima arte, mas com certeza não é algo pelo qual pode-se passar incólume. No mínimo vale por isso -mostrar uma América profunda, como nunca antes mostrada.

Ascensão e queda de uma geração

Maio 6, 2008

Eles comem bem, têm conversas inteligentes, estão no auge do desejo sexual. Assim são as personagens do filme “O declínio do império americano”, filmado pelo canadense Denys Arcand em 1986. Grande parte da obra passa acompanhando o dia-a-dia das personagens, que se preparam para um fim de semana bucólico em uma belíssima casa de campo à beira de um lago. Todos gostam das coisas boas da vida, desde o casal adúltero, passando pelo homem que cai de amores por jovens garotas, chegando ao homossexual que se cerca de belos homens. Eles estão felizes, e a forma intensa, e até bonachona, com que se portam prova isso. Acima de tudo, eles têm todo o futuro pela frente, e, para aqueles filhos de 68, nada parece impossível. Mas Arcand ofereceu, em 2003, uma verdadeira pancada sobre os sonhos de todos eles.

“As invasões bárbaras” traz o mesmo grupo de personagens, mas desta vez em uma situação bem menos agradável: um deles está morrendo de câncer. É muito melancólico perceber como todos eles, de uma forma ou de outra, fracassaram retumbantemente em suas vidas. Uns estão sozinhos depois de uma vida de infiéis prazeres, outros estão mal casados com mulheres mais novas que pareciam uma promessa de eterna juventude, outros vivem luxos medíocres sustentados por repartições estatais esquecidas pela burocracia. Como cereja no bolo, Arcand coloca os filhos de dois personagens, com rumos bem diferentes e, certamente, contrários ao que para eles imaginavam os pais -ele, uma máquina capitalista de fazer dinheiro; ela, uma drogada viciada em heroína. Devastador. Por sinal, uma das cenas mais tristes do filme é quando o filho rico paga um trio de alunos para bajular o pai moribundo no hospital. Aquele homem, que foi um professor universitário orgulhoso de sua inteligência, agora morre não só a morte física, mas tambem a morte intelectual, na sugestão de que não deixou legado algum a seus alunos. Apenas uma das falsas visitantes, ao não aceitar o dinheiro, parece oferecer algum sinal de salvação, mas aí já é tarde…

Na parte final, eles voltam para aquela mesma casa de campo do filme, mas agora não mais para um ritual de vida, mas sim para um ritual de morte. Velhos  ressentimentos são colocados para fora, voltam as conversas inteligentes, mas o fim é inevitável. A cena da morte é mais impactante ainda quando se tem “O declínio…” em mente. Todas aquelas pessoas brilhantes agora estavam ali, e a morte de um deles é na verdade a morte de tudo o que eles antes celebraram. A morte das utopias, do, com o perdão da pretensão, “joieux de vivre”, enfim, dos sonhos que os movimentavam antes de se tornarem autômatos. Para piorar esse sentimento de amargor total  o diretor ainda salpica aqui e ali pequenas, mas poderosas, observações, como na cena em que uma mulher avalia obras guardadas em uma igreja.

Fazendo uma bela de uma viagem, como dito antes, aqueles personagens seria jovens em 68. Nesse ponto, pode-se fazer uma ligação direta com “Os sonhadores”, de Bernardo Bertollucci, e seus personagens que conversam e transam em um apartamento de Paris, enquanto lá fora se desenrolava um dos períodos mais revolucionários do século. Aquela intelectualidade sem ação é a semente das personagens de Arcand. Realmente devastador.