O cineasta Anthony Minghella morreu no último dia 18 de hemorragia cerebral durante uma cirurgia. Muitos vão lembrá-lo pelo quase diabético “O paciente inglês”, que levou uma cacetada de prêmios “Oscar”, fez muitas mulheres chorarem e muitos marmanjos esperniarem -o livro de Michael Ondaatje, de mesmo nome, é bem melhor do que sua encarnação cinematográfica. Acho que Minghella acertou mesmo no filme “Cold Mountain”, quase uma adaptação livre da “Odisséia”, com seu próprio Ulisses buscando, mais do que o retorno para casa e para a amada, a conquista da palavra.
Nicole Kidman faz a mulher educada que conhece o personagem de Jude Law, um bronco limitado em sua capacidades de expressão. Claro, ambos se apaixonam. Mas a guerra civil americana separa o casal -que, na verdade, nem chega a se juntar. Na distância e na guerra, tudo o que ela carrega dele é uma fotografia, e ele, a lembrança que tem da mulher. Nicole, com a morte do pai, assume a casa em que vivem. Curiosamente, ela acaba ganhando a companhia de outra personagem tão bronca e ignorante quanto seu amado: Renee Zellweger, que é uma chata, mas que aqui fez por merecer os vários prêmios que ganhou pelo papel.
A partir de então o que se tem é a tentativa de todos estes personagens de viverem em segurança. Ele, escapando da morte sempre iminente de uma guerra cruenta e selvagem; ela, escapando da selvageria de pretendentes e auto-intitulados protetores, sempre com sua fiel escudeira ao seu lado. Na verdade, é mais uma vez a velha história americana do retorno para casa que se desenrola. Os moldes são bem típicos da tragédia grega , um Ulisses que tenta voltar para uma Penélope que se resguarda fiando e desfiando toda noite, sempre acreditando na chegada do amado, ainda que aguardando longa e ansiosamente.
O filme consegue escapar da melodrama que acabou prejudicando o filme mais famoso de Minghella -”O paciente inglês” não sai a salvo dos rasantes no campo do sentimentalismo rasgado, potencializado pela música melosa. “Cold Mountain” escapa com mais sucesso dessa armadilha, até porque os personagens têm um desenvovimento mais claro e consistente no decorrer do filme: Nicole deixa a ingenuidade de filha de pastor; Jude adquire a capacidade de expressar melhor aquilo que sente e pensa. Nem mesmo o final trágico consegue jogar areia nessa obra de Minghella. A cena final serve quase como um epílogo a mostrar como da tragédia podem surgir coisas boas, quase redentoras. Não é a última obra de Minghella, mas, pela beleza, pode ser visto como o camto dos cisnes do diretor que ainda poderia oferecer muitas coisas interessantes ao cinema.

