Posts de Março, 2008

A conquista da palavra

Março 24, 2008

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O cineasta Anthony Minghella morreu no último dia 18 de hemorragia cerebral durante uma cirurgia. Muitos vão lembrá-lo pelo quase diabético “O paciente inglês”, que levou uma cacetada de prêmios “Oscar”, fez muitas mulheres chorarem e muitos marmanjos esperniarem -o livro de Michael Ondaatje, de mesmo nome, é bem melhor do que sua encarnação cinematográfica. Acho que Minghella acertou mesmo no filme “Cold Mountain”, quase uma adaptação livre da “Odisséia”, com seu próprio Ulisses buscando, mais do que o retorno para casa e para a amada, a conquista da palavra.

Nicole Kidman faz a mulher educada que conhece o personagem de Jude Law, um bronco limitado em sua capacidades de expressão. Claro, ambos se apaixonam. Mas a guerra civil americana separa o casal -que, na verdade, nem chega a se juntar. Na distância e na guerra, tudo o que ela carrega dele é uma fotografia, e ele, a lembrança que tem da mulher. Nicole, com a morte do pai, assume a casa em que vivem. Curiosamente, ela acaba ganhando a companhia de outra personagem tão bronca e ignorante quanto seu amado: Renee Zellweger, que é uma chata, mas que aqui fez por merecer os vários prêmios que ganhou pelo papel.

A partir de então o que se tem é a tentativa de todos estes personagens de viverem em segurança. Ele, escapando da morte sempre iminente de uma guerra cruenta e selvagem; ela, escapando da selvageria de pretendentes e auto-intitulados protetores, sempre com sua fiel escudeira ao seu lado. Na verdade, é mais uma vez a velha história americana do retorno para casa que se desenrola. Os moldes são bem típicos da tragédia grega , um Ulisses que tenta voltar para uma Penélope que se resguarda fiando e desfiando toda noite, sempre acreditando na chegada do amado, ainda que aguardando longa e ansiosamente.

O filme consegue escapar da melodrama que acabou prejudicando o filme mais famoso de Minghella -”O paciente inglês” não sai a salvo dos rasantes no campo do sentimentalismo rasgado, potencializado pela música melosa. “Cold Mountain” escapa com mais sucesso dessa armadilha, até porque os personagens têm um desenvovimento mais claro e consistente no decorrer do filme: Nicole deixa a ingenuidade de filha de pastor; Jude adquire a capacidade de expressar melhor aquilo que sente e pensa. Nem mesmo o final trágico consegue jogar areia nessa obra de Minghella. A cena final serve quase como um epílogo a mostrar como da tragédia podem surgir coisas boas, quase redentoras. Não é a última obra de Minghella, mas, pela beleza, pode ser visto como o camto dos cisnes do diretor que ainda poderia oferecer muitas coisas interessantes ao cinema.

O filho pródigo

Março 6, 2008

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Raduan Nassar é um caso interessante da literatura brasileira. Filho de tradicional família fazendeira do interior paulista, iniciou muitos cursos, mas não terminou nenhum -assim como fez com sua carreira literária, feita de dois livros e um silêncio de mais de duas décadas. “Lavoura arcaica” é a primeira obra publicada por Nassar e veio a público em 1975.

O livro conta a história de André, também filho de uma família tradicional, que vive sob a sombra da autoridade paterna. Na primeira parte narra-se o processo de retorno de André para a casa paterna, sendo ele buscado por seu irmão mais velho, que o tenta convencer a voltar. A narrativa é confusa, perturbada, cheia de não-ditos e incertezas. É uma espécie de adaptação da parábola bíblica do filho pródigo que ao lar retorna. Contrastando com ela há a segunda parte do livro, na qual André encontra-se de volta. Vê-se a tirania paternal em toda a sua força, descobrem-se os motivos da inquietude do personagem principal, tudo narrado de uma maneira mais equilibrada e clara do que na primeira parte, até o final trágico do livro.

A obra apresenta desconcertantes relações com a biografia do próprio autor. Ambas as famílias são árabes; a figura paterna tambem era um presença forte na vida de Nassar; passagens do livro remetem a passagens da vida de Raduan; sua irmã era bela, assim como a irmã de André, fruto da desgraça familiar no livro. Isso pode levar a perguntas do quanto de biografia há no texto, ainda que toda obra carregue inevitavelmente características de seu autor. Seria a história contada uma espécie de expiação da vida de Raduan?

Em outro post aqui eu havia falado sobre uma tendência da literatura brasileira de narrar a dissolução da estrutura patriarcal. “Lavoura arcaica” é sem dúvida um dos mais brilhantes romances dessa escola não declarada da produção literária nacional. Mais do que isso, é uma das obras brasileiras mais importantes do século passado. Sim, isso o coloca ao lado de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e outros monstros sagrados. O que há de interessante aqui é a talvez ausência de influências passadas na obra, bem como de reflexos na produção nacional posterior. Por isso a sua singularidade, que ainda merece ser mais bem explorada pelo parco público leitor tupiniquim.

Hoje Raduan vive em uma das propriedades da família, onde se refugiou depois de escrever seu segundo e último livro, “Um copo de cólera”. Sem razão aparente, largou uma promissora carreira literária e hoje se dedica a uma das coisas que confessadamente mais gosta de fazer: descansar.