Posts de Fevereiro, 2008

Gente como a gente

Fevereiro 26, 2008

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Os últimos filhos do cinema independente norte-americano mostram basicamente personagens normais, gente sem aquela beleza hollywoodiana estonteante, lidando com problemas hora frugais hora absurdos; enfim, gente como a gente. “Eu, você e todos nós”, de Miranda July, ”Hora de voltar”, de Zach Braff, Pequena miss sunshine”, de Jonathan Dayton e Valerie Faris são apenas alguns dos recentes filmes dessa onda. O mais novo integrante nesse grupo é “Juno”, de Jason Reitman.

O filme conta a história dessa menina de 16 anos, Juno (Ellen Page), que fica grávida do melhor amigo (Michael Cera) logo na primeira vez. Depois de decidir e desistir do aborto -uma das melhores cenas do filme-, Juno resolve dar seu filho para um casal que não consegue engravidar. É assim que ela conhece o casal perfeito formado por Jennifer Garner e Jason Bateman. Daí em diante acompanhamos a vida de Juno -sempre pontuada pela ótima trilha sonora-, a gravidez, o envovimento com os futuros pais adotivos de seu filho, a reação -ou não reação- do pai da criança. 

No meio de todos os adultos do filme, Juno acaba revelando-se a mais madura de todos, ainda que por vezes não perceba o relativo interesse do futuro pai adotivo -um adolescente de 30 anos- nela e deixe escapar outras sutilezas do mundo adulto. O roteiro da ex-striper Diablo Cody é ótimo, cheio de belas tiradas, e faz com que seja impossível não gostar de Juno, uma garota esperta, inteligente e rápida com as palavras. Na verdade o roteiro tem sido a grande contribuição do cinema independente para a cena norte-americana. Tanto assim que “Juno” levou o Oscar desse ano, enquanto “Pequena miss sunshine” papou o prêmio em 2007. Numa terra onde os roteiros são comprados a preços milionários, deve causar certo horror obras tão baratas serem justamente as mais premiadas nos últimos tempos.

“Juno” é um filme simpático, muito bem interpretado, que se vê com um sorriso no rosto, apesar de, como também seus pares independentes, não ter grandes ambições e não colocar grandes dilemas nem oferecer brilhantes soluções. Mas, afinal de contas, eu nunca conheci ninguém que tenha salvado o mundo, mas já ouvi muitas histórias próximas de gravidez indesejada. Por isso gostamos tanto dessas pequenas e passageiras pérolas.

Ficção e realidade

Fevereiro 19, 2008

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O “Urso de ouro” em Berlim definitivamente consagra “Tropa de elite”, o filme muito visto e discutido de José Padilha. É um filme fascista? É uma obra crítica à polícia? Eu, pessoalmente, fico com a última interpretação. É um filme bom, que trás a visão da polícia sobre a situação do Rio de Janeiro, e que tem como maior mérito chamar a classe média a sua responsabilidade. É lamentável, no entanto, que grande parte do público não perceba o dilema nem tanto moral, mas físico do capitão Nascimento, um homem que cumpre seu dever da forma mais eficiente possível -porque é o seu dever-, mas que está cansado de integrar a linha de frente da guerra. Passa despercebido a grande parte dos espectadores que tortura é sim uma forma de corrupção, e que a história acontece em 1997 e a tropa de elite já não é tão incorruptível asssim. No geral, em que pese a bela interpretação de Wagner Moura, é um filme normal, sem nenhuma grande novidade formal ou material. Muito mais impressionante é o filme anterior de Padilha, o documentário “Ônibus 174″.

Nesse filme, o diretor conta o episódio do sequestro do ônibus 174, também no Rio, marcado por uma atuação completamente equivocada do mesmo Bope, que levou à morte de uma refém -com um tiro da polícia- e do sequestrador, que entrou vivo no camburão e chegou morto na delegacia. Padilha conta paralelamente ao seqüestro a história de Sandrinho, o criminoso. Sobrevivente da chacina da Candelária, praticada por policiais alguns anos antes, Sandro cumpre seu calvário, sendo finalmente morto anos depois pelos mesmos policias que fracassaram antes. Tudo ao vivo, na frente das câmeras. Como diz um colega de crime de Sandro, mataram-no ali, na frente de todo mundo, e ninguém fez nada. Mas Sandro é um bandido.

O que fica é a consagração pública da ficção ”Tropa de elite” frente ao fracasso nos cinemas do documentário “Ônibus 174″. Por que? Será a ficção mais palatável ao cordial público brasileiro? Será que nos interessa mais ver uma polícia vingativa a perceber o assassinato de um criminoso? Não sei. Só entendo que em toda essa discussão sobre “Tropa”, fascismo, polícia e outros temas, em nenhum momento falou-se sobre o filme anterior de Padilha, esse sim uma obra de arte, um chute no estômago da sociedade brasileira, um verdadeiro estudo sobre a psicologia social do país, uma película em que ninguém se salva e todos têm sua parcela de culpa -um fracasso de público.

Os últimos dias de Sophie

Fevereiro 13, 2008

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No documentário “Eu fui a secretária de Hitler”, Traudl Junge diz que, ao passar pelo memorial em homenagem a Sophie Scholl, percebeu ter tido a opção de seguir um caminho diferente daquele que seguiu na década de 1940. Em 1943, Junge tornou-se a secretária de Hitler -Scholl foi morta como traidora pelo sistema nazista.  Essa última história é contada no curto, mas denso, filme “Sophie Scholl – Uma mulher contra Hitler”.

Scholl e seu irmão, Hans, faziam parte do grupo oposicionista Rosa Branca. Naquele ano, os nazistas estavam na fase descendente de sua sangrenta aventura imperialista -perdiam milhares de homens por dias nos campos de batalha soviéticos-, e é nesse contexto que o grupo resolve fazer uma protesto anônimo na Universidade de Berlim, a fim de mostrar que as coisas não iam tão bem quanto mostrava a propaganda do regime. Mas algo dá errado e os irmão são presos com mais um manifestante. A partir de então, o diretor alemão Marc Rothemund bota na tela os interrogatórios, o patético processo legal e, por fim, a execução dos três conspiradores. Tudo isso durou apenas seis dias.

Scholl demonstra durante todo o processo uma retidão muito parecida com aquela mostrada por Robert Bresson em “O processo de Joana D´Arc”. Em nenhum momento Scholl recua da sua posição, apesar de em várias situações serem-lhe apresentadas saídas que não a pena de morte -assim como saídas são apresentadas à Joana D´Arc de Bresson. Ainda assim, Scholl aferra-se firmemente aos seus ideais, à sua oposição a um regime que ruia sob os pés dos orgulhosos membros do partido.

A cena do tribunal, onde os três são julgados de maneira quase sumária, chega quase à comicidade por baixo de toda sua tragédia. Um juiz que acusa aos berros -a acusação nem precisa se manifestar- e uma defesa silenciosa. O que resta é uma debate de surdos no qual o presidente do tribunal berra histericamente em nome do regime, enquanto Hans e Scholl fazem defesas corajosasa, mas constantemente interrompidas. Quando Hans fala sobre a situação no front soviético -ele serviu lá como médico do exército-, é perceptível a movimentação de parte do oficialato que assiste ao julgamento; uma espécie de reconhecimento da veracidade do relato.

O que fica é a loucura do sistema nazista, bem como uma outra visão sobre a posição da sociedade alemã na época -ela não era incondicionalmente à favor do regime; na verdade, esse ano marca o surgimento de vários pequenos movimentos de insurgência. Ainda que Sophie às vezes apareça demasiado idealizada e sem falhas, a premiada interpretação de Julie Jentsch é magnífica, sempre entre a resignação e a certeza da sua posição, ainda que suicída. Sim, Traudl Junge tinha uma opção.

O princípio de tudo

Fevereiro 12, 2008