Posts de Janeiro, 2008

Anatomia de um traído vingativo

Janeiro 30, 2008

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Fiodor Dostoiévski é considerado o grande nome do romance mundial. Seus livros transpiram angústia e conseguem chegar ao profundo da alma humana. Quem sabe uma vida de desgostos, como a epilepsia, a prisão, as dívidas, não tenham papel fundamental na formação de uma obra tão perturbada. “O eterno marido”, escrito em 1870, encaixa-se na galeria de livros inquietantes do mestre russo.

Páviel Pávlovitch é o eterno marido em questão. Viúvo, pai de uma menina , reencontra após dez anos Vieltchâninov, o ex-amante de sua mulher. Inicialmente, Páviel limita-se a seguir Vieltchâninov pelas ruas da cidade, até que o último se dá conta da perseguição e fica irrequieto. Os dois acabam por travar relações, e passam a se freqüentar de uma maneira quase sadomasoquista. Páviel desconfia da paternidade da filha; Vieltchâninov descobre nela o fruto de seu relacionamento com a mulher de Páviel. O que se segue é uma pequena série de intrigas aparentemente inocentes que surge entre os homens. Páviel é inferior física e socialmente a seu algoz. Mas ambos falham em suas virtudes morais, já que um cede aos instintos carnais, enquanto o outro não resiste aos impulsos vingativos.

A situação chega ao máximo na casa dos Záklebinin. Nessa casa desenvolve-se um perverso jogo de atração e repulsão em relação à filha do casal. Ali fica demonstrada toda a diferença existente entre os dois, e que quase chega ao assassinato no momento clímax do livro.

“O eterno marido” é cheio de grandes tensões: um beijo furtivo entre os adversários, a morte negligente da menina, o quase crime passional. A tudo isso, Dostoiévski emenda um final cruel, terrivelmente delicioso em suas observações, e que de certa forma dá um aspecto circular à obra.

A ditadura delicada

Janeiro 22, 2008

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Falta ainda ao Brasil aquele grande filme que fale sobre o período da ditadura militar. O Chile já abordou sua ditadura de maneira muito interessante em “Machuca”; a Argentina, apenas quatro anos depois de deposto o violento governo militar, fez o contundente “A história oficial”. “Dois córregos”, de Carlos Reinchenbach, talvez seja a obra que melhor abordou o tema no país, ainda que a ditadura apareça apenas como pano de fundo -e que pano!- para uma história muito interessante em primeiro plano.

O filme trata desta mulher, interpretada por Beth Goulart, que volta à casa da família no município de Dois Córregos. Ela vai lá expulsar grileiros que invadiram o local, com o intuito de vender a propriedade. No caminho, ela se vê no meio de um turbilhão de lembranças de umas passadas férias na casa, quando ela finalmente conheceu o irmão de sua mãe de quem tanto ouvira falar.

Vanessa Goulart interpreta a jovem. Carlos Alberto Riccelli é o tio. O encontro entre os dois é inicialmente seco, pois o homem não demonstra nem de perto a emoção que a sobrinha esperava haver no encontro. O personagem de Riccelli é marcado pela luta armada, que aparece incidentalmente em flashbacks narrativos, bem como pela angústia da distância em relação aos filhos que deixou para lutar por ideias -ou por amor, quem sabe. Completam a casa Ingra Liberato, como irmã de criação de Goulart, e Luciana Brasil, que faz a amiga de Goulart, uma brilhante e arrogante pianista -por sinal, filha de coronel. O filme desenvolve a relação entre esses personagens.

No decorrer da película vemos os jogos intelectuais entre o tio e a pianista, a crescente aproximação de tio e sobrinha, o amor com toques proibidos entre Riccelli e Ingra. Mais do que isso, há personagens fundamentais que são apenas citadas pela memória do homem, mas que são fundamentais para entender o contexto da obra -o pai bondoso de Goulart, a mãe iracunda da menina, a mulher pintada em tons escuros de Riccelli, todos eles vão surgindo nas descrições do tio.

No final temos uma obra sólida, extremamente bem interpretada e que, se trata a ditadura apenas lateralmente, a traz como cenário principal da relação entre os personagens. Uma pequena obra prima, infelizmente subvalorizada, que fala sobre as memórias dessa mulher.

Demolidores de casas

Janeiro 18, 2008

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Existe uma certa, digamos, tradição de escritores brasileiros que escreveram sobre a dissolução de casas como metáfora da própria dissolução familiar. Raduan Nassar e seu”Lavoura arcaica” encaixam-se nesse tipo. Milton Hatoum tambem. Lúcio Cardoso parece ser o menos festejado deles. Seu livro “Crônica da casa assassinada” é um daqueles clássicos ainda por conseguirem seu lugar ao sol.

A obra conta a história datradicional família Menezes de uma cidade do interior mineiro que tem a sua harmonia quebrada pela chegada de Nina, esposa de Valdo. O atraso inicial da desconhecida noiva vinda do Rio de Janeiro já desperta a antipatia de Demétrio, o irmão mais velho, impressão que será prontamente assumida por sua esposa, a ascética Ana.

A narrativa se desenvolve de forma fragmentária, por meio de partes de diários, cartas, confissões, depoimentos e outros meios de testemunho da história daquela casa. O livro dá um salto temporal e Nina, que havia voltado para o Rio, retorna à casa para rever não só seu marido, mas também o filho que ali deixou e que encontra então adolescente -desenvolve-se uma pecaminosa relação entre os dois.

Os relatos acabam por traçar um perfil das angústias e rancores nutridos por todos os personagens - bem como dá luz à curiosidade do resto da cidade sobre o que acontece naquela casa tão fechada ao exterior- o que dá ao livro uma atmosfera no mínimo pesada. Assistimos a decadência da família junto ao declínio físico da própria casa, que cada vez mais vai perdendo o brilho de residência da dinastia mais eminente da cidade. É mais do que a decadência dos Menezes -é todo um Brasil patriarcal e conservador que se dilui na história.

No final o que se tem é um retrato do ser humano naquilo que ele tem de pior, de mais angustiante, de mais passional, daquilo que nos faz propriamente humanos.

Talvez um dia Lúcio Cardoso consiga seu lugar nos clássicos, alcançado ainda em vida por sua grande amiga e companheira de obras psicológicas Clarice Lispector. Certamente esse livro o qualifica para tal.

Malandros e merdunchos

Janeiro 11, 2008

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Sabe todos aqueles escritores “marginais” da Praça Roosevelt ou da Vila Madalena? Pois então, tudo o que eles gostariam é ser João Antonio, o homem nada alternativo da foto de cima. Se hoje a linguagem coloquial é a regra dos que dizem fazer arte fora do “mainstream”, os temas têm que ser os marginalizados e a violência, tudo isso já fazia João Antonio lá na década de 60. “Leão-de-chácara”, um livro com 4 contos do autor, é um belo exemplo disso.

João era jornalista e paulista, mas viveu também no Rio. Daí um conto do livro se passar em Sampa e os outros três na cidade maravilhosa.

No conto que dá título ao livro, o autor narra a história de um leão-de-chácara que comete o grande pecado da profissão: apaixona-se por uma garota da casa. O narrador em primeira pessoa faz um apanhado de toda a fauna que frequenta as boites cariocas. O segundo conto narra as desventuras de um homem que sai com as cunhadas para comprar presentes de natal. Na linguagem tipicamente coloquial da narrativa percebe-se todo o enfado daquela missão terrível para um homem vencido pela vida. O terceiro narra a história de um malandro tipicamente carioca: Joãozinho da Babilônia. Mas o conto mais impressionante é o último -Paulinho Perna Torta.

Narrado em primeira pessoa, conta a história de Paulinho, que se cria menino pelas ruas de São Paulo. Acompanha o trabalho do garoto num boteco, as andanças de bicicleta -supremo momento de liberdade-, seus amores e seus crimes. Desfila toda uma gama de malandros que sobrevivem, de violências policiais, de falcatruas, tudo vivamente enriquecido pelo relato extremamente real, que nos faz quase ir atrás para saber o que ali é verdade e o que não é. Um brutal retrato desesperançado de um homem que sabe ter seu tempo na terra contado e que, pior ainda, advinha atrás dele tantos outros querendo seu lugar. Um conto incrível, bem ao gosto dessa literatura marginal, mas infinitamente superior ao que se produz atualmente.

No fim, o livro é um belo apanhado de tipos e de grandes histórias, com uma grande vantagem em relação à tal literatura marginal atual: João Antonio, nascido na pobreza paulista, jamais deixou de ferquentar os piores antros das duas cidades em que morou. O que escreve, e o jeito que escreve, ele o faz com profundo conhecimento de causa, e não como um sociólogo charlatão de mesa de bar.

“Leão-de-chácara”, João Antonio, ed. Cosac&Naify

Filme de amor

Janeiro 8, 2008

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Domingos de Oliveira fez “Todas as mulheres do mundo”, seu primeiro filme, em 1967. Já adiantava os temas que se tornariam presentes em toda a sua futura cinematografia e dramaturgia. É a história de Paulo (Paulo José), um “bon vivant” que se apaixona por Maria Alice (Leila Diniz), uma lindíssima mulher -noiva de um amigo seu.

De maneira deliciosamente leve, o longa vai contando o desenrolar do romance, desde quando os dois se conhecem, passando pelos dilemas do boêmio Paulo -dividido entre a farra e o namoro- e chegando às delícias e agruras do relacionamento. Por sua própria temática, pode ser colocado como um corpo estranho na onda do cinema novo que então graçava no Brasil. Não é filme de denúncia social e passa longe de inventividades estéticas, entre outras impropriedades frente ao panorama de então.

Por baixo de toda a leveza que se vê na tela, há um retrato fiel do que deve ter sido o Rio de Janeiro daquela década de 60. As festas, os personagens das noitadas, os amigos e as traições perdoadas, os amores na praia. Permeando tudo, há as incisivas observações de Domingos de Oliveira sobre algo tão importante quanto a política ou a denúncia social -os relacionamentos humanos.

Se não bastasse todas essas qualidades, Paulo José é incrível como o algo desajeitado mas eficiente conquistador. E Leila Diniz é aquele pedaço de beleza e rebeldia que firmou sua marca no imaginário nacional. Para ver com a namorada tomando um vinho, ou com os amigos tomando uma cerveja.