Posts de Dezembro, 2007

A pior viagem do mundo

Dezembro 20, 2007

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Há pessoas que dizem ter acabado a magia do mundo. Não há mais nada a descobrir, dizem elas. “Rumo ao pólo sul”, de Diana Preston, conta a história de um periodo em que ainda havia mistérios. Mais do que isso, mostra quão mortais poderia ser a busca das descobertas gloriosas.

O fim do século XIX assitiu a uma frenética corrida pela conquista dos pólos que entrou século XX adentro. As expedições eram grandes provas de resistência e planejamento e, mais do que isso, passaportes para a fama e a glória. O inglês Robert Falcon Scott tentou chegar ao pólo sul, e Preston conta todo o percurso do explorador, desde suas viagens iniciais até a derradeira e fatal tentativa. Scott chegou ao seu destino apenas para lá descobrir a bandeira norueguesa fincada por Amundsen, seu grande rival. O inglês morreu congelado junto com dois companheiros quando tentava voltar ao navio Terra Nova. A história fica mais fantasmagórica ainda com as passagens do diário de Scott, encontrado junto aos corpos dos três homens, onde há o relato detalhado dos últimos momentos da trio.

Preston mostra erros logísticos fundamentais de Scott, como o uso de pôneis ao invés de cachorros como tração na neve, mas sem fazer qualquer tipo de julgamento sobre as escolhas do inglês -afinal, ali se fazia o que nunca havia sido feito. O livro não se perde em detalhes desnecessários, ainda que trate o tema com profundidade. No final, temos o relato de uma época singular da humanidade, quando havia intenso progresso tecnológico, ausência de guerras e, principalmente, mistérios a revelar.

O mundo é cinza

Dezembro 19, 2007

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“Munique” fala sobre a reação de Israel ao assassinato de toda a delegação olímpica daquele país por terroristas palestinos em 1972, durante os jogos de Munique. Existem dúvidas sobre a veracidade da história. Teriam os israelenses realmente montado um comando secreto para caçar as lideranças palestinas, identificadas como terroristas? Um ex-agente do Mossad, o serviço de inteligência israelense, escreveu um livro dizendo que sim. E é essa história que nos conta Steven Spielberg.

Avner é o dedicado agente israelense convocado a montar um time de especialistas para executar os responsáveis pelo atentado de Munique.  Ele recruta os mais diferentes tipos para a missão: o homem de ação, o das finanças, o fazedor de bombas e o que some com os rastros do crimes. E assim esse time de apátridas vai executando sua missão, utilizando informações passadas por um misterioso grupo francês, que afirma não servir a ninguém, apenas ao dinheiro, deixando um rastro de sangue nos mais diversos países por que passam.

O impressionante do filme é que ele foge daquela definição de preto e branco, já citado abaixo no post sobre “Crash”.  Aqui, os homens não são meros soldados. Eles têm que conviver com as suas cada vez maiores dúvidas sobre a ética da missão. O grupo vai se desfazendo no caminho do seus sucessos e os caçadores finalmente tornam-se a caça. O filme não nega nem mesmo a complexidade do panorama internacional, como na cena em que so israelenses vão matar um lider palestino em Londres, mas descobrem que esse está sob a proteção de outra força tão ou mais forte -a CIA. E chega a colocar o ex-primeiro-ministro israelense Byniamin Netaniahu vestido de mulher para executar a mais sangrenta das missões.

Alguns afirmam que o filme é uma crítica aos Estados Unidos do pós-11 de setembro. Luiz Carlos Mertem, crítico de “O Estado de S.Paulo”, diz que o filme termina uma trilogia crítica aos americanos, iniciada com “O Terminal” e continuada com “Guerra dos mundos”. Não acho que esses dois filmes tenham tanto conteúdo político assim. Já “Munique” é uma paulada em todos os maniqueísmos que imperaram nos Estados Unidos depois dos atentados. A última cena do filme é exatamente as torres gêmeas dominando o “skyline” novaiorquino. E aí ficam várias perguntas sobre tudo o que se viu em tela: foram éticas as atitudes? valeram os custos humanos da caçada? o mundo ficou mais seguro?Às vezes olhar o passado é a melhor forma de entender o presente.

Entre a cruz e a espada

Dezembro 18, 2007

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 ”O vermelho e o negro” foi escrito por Henri Beyle, mais conhecido por seu pseudônimo, Stendhal. A obra inaugura o realismo psicológico francês, mas só teve seu valor reconhecido muito tempo depois de publicado.

O romance apresenta-se como uma “crônica de 1830″, e isso faz toda a diferença ao situar a obra historicamente. Esse foi o ano em que uma vaga de revoltas liberais sacudiu a Europa. A França também foi palco de mudanças com a queda de Carlos X. A coroação de Luis XVIII marca um grande retrocesso conservador. É nesse contexto que se mexe Julien Sorel, filho de carpinteiro pobre e que procura, a todo custo, a ascenção social. Torna-se padre (o negro da batina), mas vive uma nostalgia dos tempos guerreiros napoleônicos (o vermelho dos uniformes), onde alguém com seu talento poderia galgar degraus sociais ainda sob a névoa da revolução burguesa francesa. Assim como o próprio Napoleão galgou.

Na sua luta pelo crescimento social, Sorel envolve-se com duas mulheres: a burguesa e madura sra. de Rênal e a aristocrata e jovem Mathilde de la Mole. Pela primeira, nutre uma paixão quase espiritual e, sintomaticamente, ela é esposa de um burguês que deve a sua ascenção política à revolução. Pela segunda, Sorel alterna amor e ódio, uma relação quase adolescente por alguém que representa a classe conservadora por definição. É entre esses dois amores que se desenvolve a insistente busca de posição social de Sorel. No caminho, ele despeja uma série de críticas ácidas à sociedade da época, todas devidamente temperadas com altas doses de angústia e amargura, não sobrando quase ninguém, na vasta palheta de personagens, que não tenha sido alvo de suas estocadas. É o desmonte de muitas das máscaras sociais vigentes.

A genialidade da obra está em captar um momento muito peculiar da França, no qual a sanha revolucionária foi substituída pelo profundo conservadorismo. Sorel, que teria todas as possibilidades do mundo no fluido mundo napoleônico, encontra-se renegado de seu destino pelo tempo em que vive. O personagem que mais merece sua admiração é justamente o revolucionário que aparece fugido da América, o novo mundo onde se refletiam as agitações européias. À parte isso, Sorel vive essa nostalgia do que deveria ter sido, em eterna insatisfação com o que é. A capa da edição da CosacNaify apresenta um Napoleão vencido, forçado a abdicar pelas forças restauradoras. Poderia ser Julien, abatido pelas forças da história.

Os bonecos de Paul Haggis

Dezembro 13, 2007

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Crash ganhou o Oscar de melhor filme de 2006. Não merecia. É um filme mecânico demais, baseado na idéia de ação e reação, onde tudo o que acontece tem um consequência tida como lógica, e tudo vai em um crescendo muito óbvio e determinista.

Para piorar, os personagens são demasiado planos. Apesar de todos terem “vidas” que aprofundam suas personalidades, na verdade são todos tipos ideais. O chicano bonzinho trabalhador; o casal negro rico que sofre preconceito; o “good cop, bad cop”; o estrangeiro que luta na terra das oportunidades, e por aí vai.

A narrativa truncada, mostrando várias situações que vão se encontrando, já não é nenhuma novidade. Na verdade, virou um recurso chavão, tão óbvia quanto a narrativa linear. E, quando um artifício fica batido, mais difícil é utilizá-lo de maneira original. Paul Haggis, diretor e roteirista, falha. Não tem a originalidade de um Iñarritu (de Babel e Amores Brutos), que usa a narrativa fragmentada partindo de um único ponto, indo e avançando, destruindo o tempo.

Talvez a minha visão tão mordida sobre esse filme venha do fato de ele ter batido Munique, do Spielberg, no Oscar. Esse sim é um filme denso, onde as coisas não são colocadas preto no branco, os personagens têm dilemas e evoluem. Em Crash, a única evolução é o “good cop” matar um inocente. Pelo amor de deus, santa obviedade!

Talvez o único mérito do filme seja a sensação de indignação constante que fica, a injustiça praticada nas telas e que incomoda. Ainda assim, são sensações que se vão depois da primeira noite de sono. Não discute a fundo os problemas daquela sociedade, e aí sim ele fracassa, se não chega a ser conservador, ao cosmetizar os embates diários da cidade.

A invenção de Bioy Casares

Dezembro 11, 2007

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Viver uma vida em eterna angústia ou apreciar um fatal momento de extrema felicidade? Esse parece ser o dilema final de “A invenção de Morel”, escrito em 1940 pelo distinto senhor aí de cima, o argentino Adolfo Bioy Casares, grande amigo de Jorge Luis Borges -com quem escreveu obras a quatro mãos.

O livro é o relato de um fugitivo. Não sabemos quem ele é, nem qual o seu crime. Alega inocência e, fugindo, vem parar nessa estranha ilha, na qual pessoas aparecem e somem, e onde ele se apaixona por Faustine, que lhe trata com dolorosa indiferença. Mas essa indiferença tem explicação na invenção de Morel, cientista que trouxe algumas pessoas para participarem de um experimento no local, experimento esse fatal para as “cobaias”, que sobre ele nada sabem. À narrativa em primeira pessoa acrescentam-se comentários de um eventual editor. Colocados no rodapé, essas notas levantam dúvidas sobre a veracidade do relato, mas, paradoxalmente, servem para imprimir certa verdade ao que se lê.

O livro mescla algo de literatura policial -o fugitivo, sua declaração de inocência e sua investigação sobre a ilha- e literatura fantástica. O idílio que Morel tenta trazer a seus amigos mostra-se mortal, fato significativo quando se tem em mente que o livro foi escrito em 1940, no princípio da Segunda Guerra Mundial, e que Morel é uma corruptela de Moureau, o cientista criado por H.G. Wells que promove experiências genéticas, tambem em uma ilha, a fim de acelerar a evolução humana.  

O fugitivo consegue desvendar o mistério da invenção de Morel, e, com isso, coloca-se diante do dilema de vida ou morte. Qual a sua escolha? É aquela que aponta para um humanismo lírico, que não deixa de chamar a atenção num mundo então dominado pela tecnologia destruidora. Vale a leitura de suas parcas páginas.

“A invenção de Morel”, Adolfo Bioy Casares, CosacNaify, 132 pgs.

santiago e a memória

Dezembro 10, 2007

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João Moreira Salles, o documentarista da dinastia cinematográfica “Moreira Salles”, começou esse filme treze anos atrás. Parou porque ficou insatisfeito com o resultado, mas retomou, em 2003, o que tinha filmado. Mais do que um documentário sobre um extraordinário personagem, é um filme sobre a memória.

Santiago Bandariotti, argentino, foi mordomo da família Moreira Salles por trinta anos. Extremamente culto, destila rezas em latim, trechos de óperas, referências nas artes plásticas. E 30 mil páginas com a história de centenas de famílias aristocráticas de todo o mundo -justo ele que serviu uma das mais aristocráticas famílias brasileiras.

Interessante também é a forma crítica com que João comenta o que filmou. Ele mesmo chama a atenção para a forma ditatorial com que guiava as entrevistas. Ditatorial não -patronal. Sim, pois ainda que Santiago chame-o de Joãozinho, a Moreira Salles só interessava extrair esse ou aquele depoimento, dessa ou daquela maneira. É muito interessante a repetição de cenas, com o mesmo depoimento, até que tudo fique nos conformes de um jovem e inexperiente documentarista. Aí o filme também é uma metalinguagem sobre como fazer ou filme. Ou como não fazer.

Santiago retomando histórias da família Salles, escrevendo histórias da aristocracia; Moreira Salles retomando Santiago, filmando o fazer cinematográfico. A memória sai como o grande tema do filme, que fica marcado em nosso relembramento no elegante branco e preto em que foi feito. 

Assista. Está passando no Espaço Unibanco. Unibanco, por sinal, dos Moreira Salles.